Friday, October 23, 2020

WEGsla, o foguete brasileiro

 Sextou!

É assim que a moçada fala quando chega na sexta-feira. Aprendi no twitter. Falando em twitter, ocorre que postei uma opinião sobre a WEG por lá. Foi uma ligeira opinião porque afinal de contas o propósito do twitter é ser ligeiro. Um tuite é um rabisco do rabisco.

Eis que alguns gatos pingados me enviaram mensagem pedindo para eu escrever sobre a empresa. Eu achei merecido porque a WEG é um bela empresa e tudo o que é belo merece ser compartilhado para apreciação. Ou quase tudo.

Enfim, tudo começou no início da década de 60 quando três amigos da pequena cidade de Jaraguá do Sul em Santa Catarina resolveram unir forças. Os fundadores são importantes demais para não terem seus nomes citados. São eles Werner Ricardo Voigt, Eggon João da Silva e Geraldo Werninghaus. Com habilidades complementares (eletricista, mecânica e administrador) tocaram a produzir motores elétricos.

Ainda nos anos 70 e os motores WEG já estavam espalhados pelo mundo. Escritório na Alemanha, construção do novo parque fabril, hum milhão de motores vendidos para mais de vinte países ao todo. Essa era a WEG nos anos 70, quando o Pelé ainda jogava bola!

Na década de 80 a WEG diversificou seus negócios e passou a fornecer soluções completas para sistemas elétricos industriais. Criou as áreas de Acionamentos, Energia, Transformadores, Química e Automação. Nos anos 90 a WEG internacionalizou de vez com a criação de múltiplas filiais ao redor do mundo. A essa altura a WEG já era uma empresa brasileira com boa parte das suas receitas fora do país.

Nos anos 2000 a internacionalização da WEG deixou de ser apenas nas representações comerciais, e fábricas foram abertas na China, Argentina e México. Tudo isso além de uma intensa atuação no mercado de aquisições ao redor do mundo.

Hoje em dia a WEG está empenhada no seu ecossistema WEG Digital Solutions.

“WEG Digital Solutions é um ecossistema que conecta e integra equipamentos e sensores, capaz de coletar e armazenar dados e transformá-los em informações que tornam possível monitorar, controlar e automatizar operações, realizando análises em tempo real.”

A WEG Digital Solutions é a WEG na fundição de digitalização com processos industriais tradicionais. É a WEG na Indústria 4.0, que une colheita e análise de dados para integrar máquinas industriais em processos inteligentes.

As vantagens potenciais da Indústria 4.0 são várias e vão de ganhos de eficiência para a empresa até melhoria das práticas de sustentabilidade. É disso que a WEG quer fazer parte.

Como minha narrativa até aqui se assemelha com um encarte promocional, aproveito para deixar um videozinho corporativo mostrando como funciona essa tal de Indústria 4.0:

https://youtu.be/GPXuY0NjaHM

Agora antes de nos iludirmos com as maravilhosas possibilidades que a Revolução Industrial dos Jetsons vai trazer, vamos nos concentrar no que a WEG é hoje.

A WEG faz parte do seleto rol dos tupiniquins que conquistaram o mundo. Global, vende para mais de 130 países e conta com mais de 90 distribuidores ao redor do mundo


Hoje uma boa parte da sua receita vem da Europa e dos Estados Unidos. A maior parte ainda vem do Brasil mas essa contribuição nacional diminuiu bastante ao longo da década.



Uma explicação decepcionante seria se a receita brasileira estivesse caindo mas para  a felicidade dos Weggers (que é como me refiro com carinho ao fã clube da companhia) não foi isso o que aconteceu. A WEG cresceu suas receitas internas a 10% aa nos últimos dez anos.


Uma explicação alternativa seria um crescimento explosivo nas vendas externas. Isso teria deixado os Weggers em polvorosa! Muito embora a WEG tenha crescido lá fora não foi nada tão explosivo assim. Um 8% aa nas vendas em dólares nos últimos dez anos.


O que aconteceu então? Aconteceu que essa receita externa tem uma outra cara quando transformada para a moeda da peble, o real brasileiro. Em reais o crescimento no mesmo período foi um generoso 18% aa.


Existem infinitas maneiras de lidar com empresas que tem receitas espalhadas pelo mundo. A maioria delas complicadas. A praxe de toda indústria é complicar porque é complicando que valorizamos nosso ofício, não é mesmo? Imagine o jurídico sem o juridiquês!

Não obstante o meu ofício é investir meus recursos. E para isso eu preciso simplificar. Imagine ser acionista da Coca Cola e contabilizar cada moeda onde se vende uma garrafa? Isso sem falar nos custos, que também são espalhados em diferentes moedas. Então se você quiser ir por um caminho sombrio do tipo calcular peso de equity risk premium por país de operação para usar em custo de equity e blábláblá, fique a vontade!

O que eu vou fazer? Eu vejo que o crescimento de 10% é razoável para uma industrial desse porte e sigo em frente. Me sinto confortável com esse nível para uma empresa no estágio da WEG mesmo sabendo que parte do crescimento não foi orgânico. O crescente goodwill nos dá uma idéia da atividade da WEG no mercado das aquisições.



Aquisições devem sempre ser vistas com alguma atenção. Elas fazem parte do pacote de alocação de capital onde tantos executivos fracassam. Alguns por incompetência, outros por prioridades pessoais. Industrials requerem cuidados adicionais pois muitas empresas apelam para grandes aquisições no afã de compensar o baixo crescimento característico da indústria.

Mas aquisições não são ruins por definição. Um caso brasileiro que tenho acompanhado de longe é o da Magazine Luiza que vem fazendo interessantes aquisições pontuais. E esse também parece ser o caso da WEG que fez boas aquisições de pequenas empresas em nichos de mercado e com linhas de atuação coerentes com o big picture da WEG. As recentes aquisições na direção da Indústria 4.0 são bons exemplos.

A WEG me pareceu bastante consciente em relação a importância dos resultados em relação a base investida então não é surpresa que sejam criteriosos com aquisições. Além disso e apesar de ser uma industrial, também sempre manteve níveis confortáveis de endividamento.



Há algum tempo que leio sobre a WEG entre os colegas do twitter. Se demorei para olha-la foi em razão de, entre outras coisas, eu não me sentir atraido por industrials. Contudo, o caso da WEG não é dos piores. Muito embora seja uma industrial, a WEG faz parte de um setor onde é possível almejar uma maior diferenciação nos seus produtos. E eu não tenho dúvidas de que a WEG conseguiu. Na indústria em que está, seus retornos só são alcançados com consistente eficiência de operação e produto superior.

Para os mais céticos, uma última mostra da eficiência da WEG está nas receitas geradas pelo seu imobilizado líquido. Empresas como a WEG são muito dependentes da sua base de ativo tangível para produzir seus produtos. São as típicas empresas da velha economia. Por isso gosto de observar esse número. E de novo a WEG não decepcionou.



Agora vou observar a gestão do capital de giro da WEG. Eu quero saber a idade do estoque da WEG porque não é raro ver industrials, em face dos seus altos custos fixos, produzirem mais do que são capazes de vender apenas para manter as fábricas ocupadas. E estoque empilhando nunca é bom sinal.

Além do mais vou ver também se a WEG não está aumentando suas vendas as custas de prazos longos para seus clientes. Um aumento no prazo médio de recebimento para 2020 seria aceitável. Estamos em um ano atípico onde muitos contratos foram revisados e flexibilizados. Mas não quero ver nenhuma forte aceleração de tendência.


Aqui também nada alarmante. A verdade é que esse rabisco já está ficando grande demais e para onde eu olho eu vejo na WEG uma boa empresa. Política de aquisição, retornos sobre capital investido, níveis de endividamento, margem do negócio, crescimento da receita, gestão do capital de giro, níveis de utilização et cetera. Tudo no seu lugar.

A empresa tem uma belíssima operação. Quem diria que uma empresa de capital intensivo e tecnologia nasceria de uma pequena cidade brasileira e ganharia o mundo? No minimo é improvável. Para aqueles mais patriotas dá para dizer que é um motivo de orgulho para os brasileiros. A WEG é sem dúvidas uma empresa superior dentro da sua indústria.

A execução ao longo dos anos foi muito bem feita com a entrada em novos mercados e a ampliação na oferta de produtos. Não só ampliação como também evolução dos produtos. A WEG direciona 2.5% da receita para pesquisa e desenvolvimento, o que hoje dá uns 350 milhões de reais. É um custo que tem que ser visto como investimento para uma empresa como a WEG. Tudo feito com propósito, dentro de um plano coerente e com atenção nas métricas de rentabilidade.

Olhando para a frente, a Indústria 4.0 pode sim abrir novas possibilidades para a WEG. Até pelo potencial de substituição que isso traria para a própria base instalada dos produtos WEG. Mas por agora essa é uma realidade ainda longe de uma adoção em massa. Muito longe.

O grande porém da WEG então fica apenas no seu preço. Pois é, sou do grupo que acha que a WEG está cara. Na verdade eu acho que a WEG está muito cara. Merece um prêmio para seus pares, disso não há dúvidas. Mas é uma empresa com limitado potencial de crescimento e expansão de margem, em uma indústria ruim. Com uma dose de generosidade e seu preço justo seria na casa dos 50 reais.

Eu sei que isso não agrada aos Weggers. É possível que eles apontem para o quão errado eu estive daqui a um ano. Um lado de mim ficaria feliz se isso acontecesse porque a WEG é uma boa empresa e gosto de ver a prosperidade das boas empresas. Mas ainda que eu esteja errado na minha avaliação de preço justo, é improvável que eu esteja errado quando digo que não há margem de segurança em uma entrada a 80 reais.

E no final das contas, isso é o que importa.


Stay cool, Weggers!

Don Black


Monday, September 14, 2020

O lado negro da experiência

 "Na busca do conhecimento, todos os dias algo é adquirido,

Na busca do tao, todos os dias algo é deixado para trás.", Lao Tzu

 



A tragédia de Mann Gulch é famosa. Chegou a virar livro premiado pelas mãos de Norman MacLean, sob o título “Young Man & Fire”. Nela, 15 bombeiros paraquedistas de elite pularam de um C-47 em uma floresta em Montana para conter um incêndio. Menos de duas horas depois e apenas três tinham sobrevivido.

O ápice da tragédia começou no momento em que um dos bombeiros, Dodge, notou que o incêndio estava se deslocando na direção do grupo. A equipe se reposicionou e começou a fugir do fogo que estava vindo. O problema é que as chamas de nove metros de altura estavam se movendo a quase doze quilômetros por hora. Qualquer tentativa de fuga não passaria de uma sentença de morte naquele terreno.

Dodge percebeu que a equipe não teria nenhuma chance de fugir e então, faltando poucos minutos para que o fogo os alcançasse, surgiu com uma idéia. Sua idéia foi implementar o que é conhecido hoje como incêndio de fuga. Ele ateou fogo em uma grande área próxima, ordenou que todos os bombeiros largassem seus equipamentos e que corressem e ficassem abaixados na área das cinzas onde o fogo havia sido queimado.

O princípio dessa técnica é de que o incêndio de fuga priva o grande incêndio de combustível, de modo que quando o grande incêndio chega já não há mais nada ali para queimar. É uma técnica de sobrevivência e não de contenção.

E foi uma técnica que funcionou. Dodge saiu ileso. Mas infelizmente nenhum bombeiro seguiu as orientações de Dodge. Dois deles ainda escaparam porque conseguirem se proteger na fenda de uma rocha. Todos os outros foram engolidos pelo fogo.


***


A tragédia de Mann Gulch virou um case estudado no mundo todo por várias razões. Liderança, criatividade, ação sob pressão, lidar com o inesperado... é só escolher! E apesar disso eu li o livro pela primeira vez sem filosofar muito. Comprei porque era um dos mais vendidos, li, guardei e esqueci. Foi uma leitura burocrática.

Anos depois eu estava tomando uma Zubrowka com um amigo polonês do GROM. Bom, ele já não era mais da ativa mas acho que uma vez GROM, sempre GROM. Para quem não sabe, GROM é um grupo das forças especiais polonesas. Os camaradas são dos sujeitos mais brutos da face da Terra. Trabalham com os SEALS americanos em várias operações e bebem como se não houvesse amanhã, fato que custei a me acostumar porque eles nunca ficam longe das suas armas nem depois de cinco litros de vodka.

Daí você pode imaginar minha surpresa quando esse rapaz me falou sobre o livro da tragédia de Mann Gulch. Não era desse tipo de figura que eu esperava uma resenha literária. Na verdade, já um pouco embriagado, me pareceu muito engraçado que um GROM falasse sobre psicologia e livros então a minha reação foi dar uma gargalhada. Para minha saúde física meu amigo GROM não se ofendeu. Acho que ele entende a importância de traçar perfis.

Acontece que o perfil que tracei foi péssimo e faz todo o sentido que um GROM conheça sobre Mann Gulch. “Nós viviamos situações como essas todos os dias”, ele me disse.

“Como assim?”, foi o que perguntei

“Quando a merda é nova e a gente tem que largar nosso velho equipamento pra ficar vivo. É mais difícil do que parece”

Fiquei alguns segundos calado, pensando. Sem saber bem o que falar, eu apenas disse:

 “Shall we drink to that?!”, e virei meu último gole de Zubrowka.

Eu sabia que era hora de uma releitura.

 

***


A Amazon foi a empresa mais importante da minha vida. Tudo que é possível de dar errado na relação de um investidor com uma empresa aconteceu entre a gente. Eu comprei quando devia vender. Eu vendi quando devia comprar. Eu não comprei quando devia comprar. Eu não vendi quando devia vender. Eu fiz muita coisa quando eu não devia ter feito nada. Em determinado momento da nossa relação eu achava que eu era a única pessoa do planeta a perder dinheiro na Amazon.

O problema não era perder dinheiro. O problema era não encaixar o processo. Era ficar perdido, sem entender uma empresa de tendência secular. Eu já disse aqui uma vez que sempre tive a convicção de que não devemos ficar a margem das tendências seculares. Eu sentia que tinha que colocar empresas como a Amazon no meu círculo de competência e eu não estava conseguindo. Mas eu me recusava a ser, como Lemann disse certa vez, um dinossauro apavorado. E então meu diálogo com o GROM veio bem a calhar.

Quando eu voltei a ler sobre a tragédia de Mann Gulch eu li sobre o psicólogo Karl Weick. Weick estudou outras situações parecidas e sobre elas escreveu:


“Abandonar suas ferramentas é uma proxy de desaprender, de adaptação, de flexibilidade. É a própria resistência das pessoas em abandonar suas ferramentas que transforma esses dramas em tragédias.”, Karl Weick

 

Eu estava determinado a não transformar meu drama com a Amazon em tragédia. Com a Amazon eu tive que desaprender para sobreviver. Menos book value, menos lucro, mais fluxo de caixa, mais intangível, mais disrupção. A Amazon me ensinou na marra e me preparou para muitas oportunidades que viriam pela frente.

Hoje eu posso dizer que a Amazon foi a empresa mais importante da minha vida. Tudo que é possível dar certo na relação de um investidor com uma empresa aconteceu entre a gente.


 ***

 

“Ao invés de se adaptar a situações pouco familiares, Weick notou que grupos experientes se tornam rígidos sob pressão e regressam àquilo que eles sabem mais.”, livro Range

 

Uma das maiores lições que tirei do mercado é manter a mente aberta. Gosto de pensar que isso já está na minha natureza mas prefiro não contar com isso e manter a vigilância. A medida que o tempo passa ficamos mais presos aos nossos equipamentos. A medida que o tempo passa somos mais vulneráveis ao viés da consistência e do comprometimento. Esse é o lado negro da experiência. É como se a raiz das nossas crenças avançasse sempre mais a fundo.

Esse dogmatismo natural que a experiência traz pode ser desastroso em ambientes de padrões não-óbvios e feedback atrasado. Segundo o psicólogo Robin Hogarth, ambientes assim são chamados de ambientes hostis. E adivinha qual é um ambiente hostil? Sim, o de investimentos.

Então desconfie sempre daquele que está sempre hipervalorizando a importância da experiência. Sim, ela é importante. Mas requer uma mente aberta que, como vimos, não é tão fácil de alcançar. E é improvável que alguém que tenha alcançado viva se vangloriando por sua experiência, por mais experiente que ele seja. 😉


***


Esse texto todo foi motivado por um pedido de recomendação sobre um gestor. É claro que eu não recomendei nada. Eu apenas dei o link do post que fiz sobre o tema, Meu gestor de investimentos favortio.

Eu não gosto de recomendar nada. Acho recomendação de uma chatice sem tamanho. Tem várias outras questões que não me agradam em recomendações, mas ser chato é a principal delas. É tão chato que as vezes até me surpreendo com o tamanho da indústria de recomendações. Acredito que pague bem. O ser humano está disposto a fazer qualquer coisa diante de apropriado contracheque e dar recomendações de investimentos passa longe de ser a pior delas. Apenas acho chato, mas fico feliz que tenha gente boa que goste.

Então não percam o tempo de vocês me pedindo recomendações de investimentos. Eu não vou dar.


 *** 


A título de curiosidade fui conhecer o trabalho do gestor que o rapaz pediu. Eu não dou recomendações mas também nem sempre controlo minha curiosidade. Fiquei preocupado de perder muito tempo com essa besteira mas no fim das contas me levou menos de 30 minutos.

Fui pesquisar e vi que o rapaz teve bons e maus momentos. Normal. O momento ruim foi ruim além da conta, mas acontece. Fui ver algumas cartas. Peguei da época ruim, da época boa e uma mais recente que, por acaso, também vai bem. Não é preciso ler as cartas todas, só passar os olhos.

Muita frase de Buffett, muito discurso de value investing. Normal também. Value investing virou estratégia de marketing para todo tipo de fundo. Todas as cartas com doses de arrogância. Sim, nem o período das vacas magras trouxe humildade. Foi um festival de “o mercado não percebe, nós percebemos, nós vamos aproveitar”. E com isso os erros foram se empilhando. Compounding também anda de marcha ré.

Outra característica do período das vacas magras foi culpar o cenário macro. O pobre cenário macro serve pouco para receber mérito dos falsos value investors nas épocas gordas mas são os primeiros da fila na hora de encontrar culpados por uma tragédia de performance. Cuidado com profissionais que terceirizam responsabilidades quando as coisas vão mal.

Para mim já estava suficiente mas para quem gosta tinham outros sinais. Redução da comunicação com investidores no período ruim e mudança de nome para fazer o histórico cair no ostracismo são dois deles.

As cartas recentes continuam destilanto arrogância. Os maiores investidores não são arrogantes por construção. Eles tem humildade. Não é que eles sejam passivos. Eles demonstram arrogância pontual dependendo da situação em que estão. Mas não fazem da arrogância uma guia de vida. Não sou psicólogo mas acredito que a arrogância por construção é um mecanismo de defesa para mascarar algum complexo. Por isso é comum em pessoas muito defensivas.

E, claro, hoje ele se vangloria por sua experiência. Mas a essa altura você já sabe o que isso quer dizer, não é mesmo?

Eu não dei recomendação para o rapaz, apenas indiquei um post. Mas se ele leu, vai saber exatamente o que fazer.

Ou o que não fazer.

 

Keep your mind wide open,

Don Black


Monday, September 7, 2020

A Pizzaria do Don: Demonstrações financeiras para iniciantes

Tenho um conhecido que diz que relatórios financeiros estão para investir como o manual do carro está para dirigir. Uma das coisas mais estúpidas que você já ouviu, eu sei. É verdade que para alguns traders os números financeiros de uma companhia são dispensáveis mas não é disso que o rapaz se refere. Ele realmente se enxerga como um investidor de longo prazo e acha que não precisa olhar para os relatórios da companhia.

Para ele basta uma avaliação qualitativa geral do negócio. Na verdade ele já usou até estratégias mais esotéricas como comprar uma ação só porque sonhou com ela. Para surpresa de ninguém, esse rapaz não depende dos seus investimentos. Ele é apenas como boa parte dos participantes do mercado: se diverte com a atividade, não ganha muito mas também não perde o suficiente para sair do jogo. E assim vai indo.

Entender relatórios financeiros é obrigatório para um investidor. Essa é uma verdade. Outra verdade é que primeiro precisamos aprender a andar para um dia corrermos. Munido dessas duas verdades decidi escrever o texto de hoje, um texto básico sobre os relatórios financeiro que espero que possa ajudar os iniciantes.

Então aqui fique avisado de que esse é um texto inicial sobre relatórios financeiros. Se você já entende disso, seu tempo vai ser melhor aproveitado em alguma outra coisa.

SIGA O DINHEIRO

A melhor forma de entender contabilidade é pensar no negócio. Vamos imaginar como o dinheiro se mexe dentro de um negócio simples.


(1) Uma empresa precisa de dinheiro para começar. Ela vai levantar dinheiro vendendo parte do negócio ou pegando dinheiro emprestado. Assim, acionistas ou credores vão fornecer capital para o início das operações.

(2) e (3) A empresa vai pegar essa grana e pagar por equipamentos e instalações para começar a produzir seu estoque que, mais tarde, será vendido.

(4) e (5) Na hora da venda a empresa pode vender a vista ou a prazo. Se vender a vista o estoque vai virar dinheiro. Se for a prazo o estoque vira contas a receber.

(6) Contas a receber é só um jeito chique de chamar o bom e velho fiado. Tudo que foi vendido a fiado fica no contas a receber até que o cara que pegou fiado pagar o que deve. Quando o cara finalmente paga o que deve esse valor sai do contas a receber e vira dinheiro na mão da empresa.

Agora que a empresa já ganhou uma grana com suas vendas ela vai poder gastar esse dinheiro de várias maneiras:

(7) parte disso vai para produção com a compra de matéria-prima.

(8) parte vai para investimentos. Aqui a empresa compra mais equipamentos para poder ampliar a produção por exemplo.

(9) parte vai embora na forma de impostos para aquele sócio que ninguém gosta muito chamado governo.

(10) e parte volta para aqueles que deram dinheiro lá no início de tudo. Pode voltar na forma de dividendos para os investidores/sócios ou na forma de juros de dívida para os credores.

 Legal, não é? Agora você se pergunta, “tudo bem, mas como isso ai se transforma em relatórios financeiros?”.

Pra responder essa pergunta eu te convido a conhecer a Pizzaria do Don!


A PIZZARIA DO DON


Como ando meio desocupado resolvi abrir uma pizzaria. E como ando meio quebrado, resolvi pegar uma grana emprestada para isso. Apesar de quebrado sou bem relacionado. Por isso peguei 1 milhão de reais no Banco Nacional de Desenvolvimento Economico dos Amigos do Rei, o BNDEAR.

1. Um milhão de reais emprestados pelo BNDEAR. O empréstimos vence daqui a muito tempo:


Agora que tenho dinheiro no caixa é hora de fazer nascer a Pizzaria do Don. Comprei uma pequena loja e dei uma recauchutada. Comprei também um forno de última geração, cadeiras, mesas e louças chiques. No total gastei 700 mil reais com a loja, os equipamentos e o mobiliário.

Sobrou 300 mil. Desses 300 contos eu peguei 200 mil para comprar farinha, queijo, calabresa, vinho, refrigerante e todos os outros ingrediantes que eu preciso para atender minha clientela.

Eu sei que parece muito mas pense que um Romanee Conti é bem caro. Minha pizzaria é de bacana!

Vou guardar 100 mil reais.

2. Comprei loja, equipamento (ativo imobilizado) e estoque.


Se eu tivesse que divulgar um balanço agora o negócio estaria assim:


Noite de inauguração, noite de casa cheia! Alguns amigos políticos que me ajudaram a conseguir o empréstimo com o BNDEAR vieram. Além deles uma turma fez questão de conhecer essa nova pizzaria da cidade.

Quando a noite acabou eu sentei no sofá para tomar nota do que aconteceu. Metade do meu estoque tinha sido vendido. O pessoal se fartou de pizza e vinho caro. Então eu tive um “custo de produtos vendidos” de 100 mil reais (metade dos 200 mil reais do estoque).

Como não sou bobo, abri a pizzaria do Don para ter um bom lucro. Determinei que todo o estoque que eu comprei por 200 mil reais seria vendido por 600 mil reais. Isso me daria uma margem bruta de 67%.

Trabalhei com essa margem na cabeça a noite toda. Como vendi metade do meu estoque, acabei vendendo um total de 300 mil reais (600,000/2). Então eu vendi 300 mil reais de produtos que me tinham me custado 100 mil reais.

 Mas lembra que eu disse que recebi alguns amigos políticos? Pois é, como eles são bacanas e me ajudaram com o empréstimo, eles foram embora e não pagaram. Mas prometeram pagar depois! O valor da conta deles? 70 mil reais. Então foram 70 mil reais que fiquei pra receber no futuro.

3. Vendi metade do estoque. Um total de 300 mil reais sendo que 70 mil reais foi fiado e vou receber depois.




Já era hora de se preparar para a noite seguinte. A hora da abertura estava chegando quando me dei conta de que o estoque de vinho estava baixíssimo! É assustador o quanto essa turma bebe de vinho. Eles dizem que vão comer pizza só para ter uma desculpa para se embriagar.

Fato é que precisei ir no mercado do português comprar mais vinho as pressas. O português é guloso e cobra uma fortuna mas aquela altura eu não tinha tempo para ir em outro lugar. Cheguei no português, escolhi os vinhos e na hora de pagar notei que tinha esquecido o cartão.

Para minha sorte o português é meu amigo! Então agora foi a minha vez de pegar fiado. Peguei 50 mil reais de vinho e fiquei de pagar depois. Bem que eu disse que era vinho pra xuxu e que o português era meu amigo...

Esses 50 conto vão para o “contas a pagar”. O contas a pagar é quando eu pego fiado e o contas a receber é quando pegam fiado de mim.

4. Comprei fiado 50 mil reais de vinho com o português




Indo para a segunda noite eu notei mais um problema! O problema é que o forno estava demorando mais para assar as pizzas. Ele já não estava mais tão eficiente como quando comprei. O nome disso é depreciação. Depreciação é a forma de contabilizar a perda de produtividade dos equipamentos. Meu forno estava um pouco pior mas ainda dava para usar. Chega uma hora em que a depreciação vai se acumulando e o equipamento já não presta mais. Quando isso acontece é hora de substituir o equipamento todo.

Eu ainda não estava precisando substituir todo mas o forno já não era assim mais tão eficiente. Então a contabilidade diz que eu tenho que contabilizar isso de alguma maneira. A contabilidade está sempre querendo contabilizar tudo que acontece.

A minha maneira aqui foi dizer que o forno sofreu uma depreciação de dez mil reais. Na vida real a depreciação é medida e contabilizada de outras maneiras mas por enquanto aceite que o forno sofreu uma depreciação de dez mil reais.

5. Forno sofreu depreciação de 10,000.



Se eu for fazer minha demonstração de resultados agora ela vai ficar assim:




O olhar atento vai notar que meu lucro está diferente da minha variação de caixa. Meu lucro foi de 190,000 enquanto meu caixa cresceu 230,000 (dos 100,000 iniciais para 330,000).

Porque? Essa diferença está no coração da contabilidade. O lucro contábil tenta retratar a realidade economica da empresa da melhor forma possível enquanto o caixa mede apenas quantos reais (R$) já entraram e sairam do negócio.

Lembra quando eu tive que contabilizar 10 mil reais de depreciação do meu forno? Eu precisei fazer isso para deixar claro que meu forno já não esta tão eficiente quanto antes. E por não ser mais tão eficiente, ele hoje vale menos do que ontem. Por isso meu ativo imobilizado saiu de 700 mil reais para 690 mil reais. Esses 690 mil reais é um montante mais realista para a atual situação do meu negócio.

Mas embora esses 10 mil reais tenham afetado meu lucro, ele não afetou meu fluxo de caixa. Não afetou por que eu não gastei nenhum real para consertar o forno. Como se diz, essa depreciação não teve efeito caixa mas impactou meu lucro contábil.

Vamos olhar para o que aconteceu com o balanço da minha pizzaria, comparar com a demonstração de resultados e tentar construir uma demonstração do fluxo de caixa para conciliar essa diferença entre lucro e caixa.

O balanço mudou desde a última vez que construimos (inicial) e agora esta da seguinte forma (final):



(a) Vamos começar do lucro reportado de 190 mil reais. Já expliquei que depreciação afetou meu lucro mas não afetou meu caixa. Sendo assim, precisamos colocar esse valor de depreciação de volta no lucro para tentar chegar no caixa.

(b) Meu estoque saiu de 200 mil reais para 150 mil reais. Essa redução de 200 para 150 mil é uma fonte de caixa para a empresa. É um dinheiro que estava preso na forma de estoque e que agora foi liberado.

(c) O meu contas a receber saiu de zero para 70 mil reais. A decisão de conceder esse crédito para meus amigos políticos foi uma decisão de negócios que eu tomei e que portanto tirou 70 mil reais do caixa.

(d) Meu contas a pagar saiu de zero para 50 mil reais. Esse é um dinheiro que eu deveria ter gastado mas que não saiu da conta porque foi uma compra a crédito. Graças ao meu amigo português essa foi uma decisão de negócios que eu pude tomar e que liberou 50 mil reais para o caixa.



Pronto! Partindo do lucro da pizzaria nós ajustamos as variações das entradas "não-caixa" do balanço e chegamos naquilo que foi o caixa gerado pela operação.

A conclusão mais importante aqui é que o fluxo de caixa e a demonstração de resultados mostram coisas diferentes e por isso é importante que o investidor olhe os dois. 

Eu acho que já está bom para esse primeiro texto. E com tudo que vimos aqui eu gostaria que você pensasse em algumas perguntas:

1) O que é um balanço, uma demonstração de resultados e uma demonstração de fluxo de caixa?

2) Como os três estão conectados?

3) Porque o lucro e o caixa gerado nem sempre iguais? É possível uma empresa ter lucro e quebrar?

Stay cool,

Don Black




Tuesday, August 18, 2020

Ficam as notícias, vão-se os jornais: o mercado aberto chegou para o jornalismo



Eu assino três jornais. WSJ, NYT e FT, caso você esteja se perguntando quais. Meu consumo é todo online e minha filosofia é de que se eu cair em um número suficiente de paywalls que me irrite, eu assino. Vez por outra assino um apenas para me decepcionar e cancelar pouco tempo depois.

Nunca na minha vida eu assinei assim tantos jornais. O mais curioso de tudo é que nunca na minha vida eu li tão pouco jornal. Não que eu esteja jogando dinheiro fora. Acredito que o que pago é justo quando considero as informações que tenho acesso. Apenas meu tempo de atenção está mais distribuido por outros canais.

 ***

O consumo de notícias até lá para início dos anos 2000 era um mix de jornal nacional, jornal de bairro e revistas. Sempre gostei de ler e por isso eu lia todo o jornal nacional, todo o jornal de bairro e uma ou outra revista quando o dinheiro dava. Era isso. Se eu não gostasse da cobertura internacional do jornal eu não ia na banca comprar um outro jornal com boa cobertura internacional. Se eu não gostasse do colunista de futebol eu não ia na banca comprar o texto de um colunista que eu gostasse. O que tinha era o que tinha.

E se leitores tinham opções limitadas, anunciantes também tinham. Para felicidade dos jornais. O dinheiro era farto não só nas tiragens como também nos anúncios. Os jornais se lambuzaram até não poderem mais com todo esse controle de distribuição. Encheram os bolsos, criaram celebridades e ditaram o tom. Ainda que nunca admitissem.

Até que chegou a internet.

 ***

Veja o meu caso. Como eu disse, nunca li tão pouco jornal. Mas por outro lado sigo lendo tanto ou ainda mais do que antes. A minha atenção vai além dos jornais para predominantemente blogs e sites especializados. Para todo assunto do meu interesse existem autores excepcionais publicando na internet de maneira independente. O cardápio é vasto e fragmentado. Eu não preciso consumir tudo sobre negócios em um só lugar. Existe um para tecnologia e existe um para varejo. Assim como em esportes. Existe um para futebol e um para golfe. E assim é com viagem, cultura, gastronomia. A internet diminuiu restrições sobre onde posso colocar minha atenção na hora de consumir conteúdo.

A internet quebrou o controle de distribuição dos jornais e ampliou a oferta de notícias daquilo que o público quer consumir. Hoje eu leio menos jornal mas a qualidade do que consumo é maior do que jamais fora. É maior do que qualquer jornal já foi capaz de me oferecer. Não por incompetência, mas por impossibilidade. E se ao invés de qualidade de conteúdo eu buscasse apenas porcarias superficiais, eu também seria melhor servido pela internet do que por um jornal. A internet me daria um cardápio farto de porcarias personalizadas para meu gosto. Para qualquer gosto. Nenhum jornal faz isso.

O consumo de informação ficou personalizado e com isso os anunciantes foram atrás. Porque o anunciante precisa de anúncios direcionados ao público alvo. E a internet é pródiga em coletar informações de cada leitor, fazendo com que anúncios sejam eficientes e se tornam vendas. Vocês estão me acompanhando? Jornais sem controle de distribuição viraram jornais sem o mesmo poder sobre leitores e anunciantes. Viraram jornais sem a grana de outrora.

 ***

Eu sou um homem de negócios. A minha visão é a de que jornais devem ser tratados como negócio, assim como qualquer outro negócio. Já perdi as contas de quantas vezes já discuti com algum jornalista por causa disso. Jornalistas que culpam a internet pelo empobrecimento da informação quando na verdade se ressentem da migração dos leitores e anunciantes que a internet trouxe.  

São muitos os jornalistas – principalmente os que fizeram carreiras em jornais tradicionais – que pensam ter um direito inalienável sobre o dinheiro dos anunciantes. O discurso é de que jornais são pilares democráticos, que os jornalistas são os bastiões da liberdade, que os jornais são garantia de boa informação, que seus profissionais são vencedores de prêmio Esso, que blogs e redes sociais só tem Fake News. Então por toda essa grandeza eles tem que ter funding. Por todo essa superioridade de valor é uma grande catástrofe que jornais estejam indo a falência e jornalistas estejam perdendo seus empregos.

Eu não compro esse discurso. Até porque com todo o controle de distribuição que os jornais tinham, o valor de um jornalista para o jornal era marginal. Como eu disse antes, se o colunista esportivo fosse ruim eu não ia na banca comprar a coluna de outra pessoa. E também não deixava de comprar o jornal. Muitas matérias de baixo nível foram impressas sem impactar em um centavo a receita dos jornais. Então essa é uma realidade que poucos jornalistas aceitam, a de que eles sequer oferecem o melhor conteúdo.

Sem um grande conteúdo e sem personalização, os jornais perderam valor. Muitos faliram e muitos jornalistas ficaram desempregados. Os jornais da maneira que conhecemos vai acabar. Porque jornal é sim negócio, e o negócio mudou. Jornalistas vão ter que se ajustar à nova realidade. A realidade de um mercado aberto.

A internet permite que os leitores determinem o valor de um jornalista. O rapaz que vivia atrás do salário do jornal e publicava suas matérias medianas naquele calhamaço pode agora abrir seu blog, escrever seu conteúdo, divulga-lo e deixar o mercado precificar. E é esse conceito que apavora muitos jornalistas. A noção de que o mercado vai determinar o seu valor é o pesadelo de quem se acomodou vivendo escondido atrás de uma estrutura protegida.

Mas esse é um caminho sem volta. A indústria de notícias passa por rápidas transformações e os jornalistas vão ter que encarar seus pesadelos.

Inclusive muitos já estão.


Stay cool,
Don Black

Tuesday, August 11, 2020

Um e-mail para Warren Buffett. E uma resposta do Oráculo de Omaha.

"'- O meu conceito de boa companhia, sr. Elliot, é estar acompanhada por pessoas inteligentes e bem-informadas, que saibam conversar; é isso que chamo de boa companhia.'

'Você está enganada,' disse ele gentilmente, 'isso não é boa companhia, isso é o melhor.'", Jane Austen, Persuasão

Eu, como qualquer outro amante de negócios, acompanho os grandes investidores. Leio biografias, entrevistas e nos últimos anos tenho ouvido também podcasts. Faço isso também com executivos que eu admiro. Se o Bill Gates der uma nova entrevista é certo que eu vou ler. Talvez vocês já tenham notado.

Mas o que eu realmente queria não está disponível. Eu queria ler as trocas de mensagens e participar das conversas particulares que essas pessoas trocam entre elas. Quem não ia querer sentar em uma mesa de bridge com Gates e Buffett e jogar conversa fora sobre negócios, tecnologia, aquecimento global, coronavírus e o que mais for?

Eu tive a felicidade de criar laços com algumas dessas pessoas interessantes que atraem muito público quando falam. Não com Gates e Buffett, infelizmente. E a questão é que quando elas conversam livremente entre si, elas estão em seu estado mais cru de troca de idéias. Não existe a posição de autoridade de ser um convidado de um programa de TV. Não existe a responsabilidade de saber que será lido por uma multidão.

Não é que elas mintam diante do público. Nada disso. Mas o massificado não é profundo. Qual você acha que é a melhor forma de entender o pensamento de Munger e Buffett? Uma semana ouvindo suas entrevistas na CNBC ou uma semana ouvindo os dois ponderando sobre um potencial negócio?

A única forma de você se beneficiar dessa troca entre pessoas interessantes é você fazer parte do circulo das pessoas que você considera interessantes. Uma coisa improvável de conseguir se você for um idiota ou se você gastar todo seu tempo com pessoas idiotas. Então seja consciencioso sobre onde  e com quem você gasta seu tempo. Contribua com bons conteúdos, cerque-se de pessoas que você admira e deixe os idiotas de lado.

A menos que você ache interessante ser idiota, claro.

 ***

Para nossa felicidade uma troca de e-mail de Buffett veio a público. É inusitado porque segundo consta ele não é muito de e-mail o que, de acordo com essa troca, parece ser verdade.

Em 1997 um executivo da Microsoft chamado Jeff Raikes mandou um e-mail para Buffett. Amenidades a parte, Raikes explicou o modelo de negócios da Microsofit para Buffett, falou sobre expectativas futuras e recebeu um reply do velho Warren.

Os dois e-mails juntos são uma aula. Vou deixar aqui a íntegra das mensagens. Agradeço se alguém puder traduzir. Vou também passando abaixo sobre alguns trechos interessantes enquanto faço minhas próprias observações:


TRECHOS DO E-MAIL DE RAIKES PARA BUFFETT:



Raikes fala sobre a troca de mensagens como “uma discussão divertida ou um exercício intelectual”. É exatamente isso! Uma troca de idéia entre um executivo de uma das maiores empresas do mundo e o maior investidor da história. Raikes sabe a posição de Buffett sobre a Microsoft. É claro que mudar a cabeça de Buffett sobre o assunto seria bem vinda mas Raikes sabe que nem todo diálogo precisa ser um exercício de convencimento ou imposição de uma visão sobre a outra. Uma troca é o que é, uma troca. Quando os envolvidos são pessoas interessantes e de alto nível, se torna um “exercício intelectual”. É um ganha-ganha porque as duas partes saem com aprendizados. As duas partes se divertem. Ainda que em última instância ninguém mude de opinião.

Construa um círculo onde você e seus colegas tenham o ambiente para se exercitar intelectualmente. Sem autoridades, sem um buscar vantagem sobre o outro, sem obtusos, arrogantes e donos da verdade. Um ambiente saudável.

 

 

Aqui Raikes explica a linha de receitas OEM, os fabricantes de equipamento. Quase todos os PCs do mundo eram vendidos com Windows. Essa maneira de comoditizar o complemento é muito útil nos negócios. Muitos fabricantes de PCs e no entanto o sistema de todos deveria ser Windows. Enquanto os fabricantes tinham os gastos de fabricação, marketing e vendas, o Windows pegava carona.

O sucesso dos PCs, fosse a fabricante que fosse, se traduziria em sucesso para o Windows. Com a beleza de que os grandes custos estão nos ombros do complemento. No caso, os fabricantes. Não é a toa que, como Raikes fala mais a frente, é um negócio com 90% de margens.

Outras considerações bacanas de Raikes – que não vou colar aqui – são sobre a necessidade de combater a pirataria, o pricing power, switching cost e potencial do mercado internacional. Ele estava certo sobre todas elas.

Avançando bastante pro futuro, é interessante ver o impacto que o cloud teve sobre os resultados da Microsoft. Deixando o Azure de lado, a pirataria foi um problema bem resolvido a medida que a Microsoft migrou para SaaS. A mesma coisa que vimos em outras indústrias, como a da música. A tecnologia é rápida em fazer transições de paradigmas.

 

 

Agora Raikes fala sobre o segundo segmento, o de “finished goods”. É uma variação do conceito do barbeador e da lâmina de barbear. O PC vai com o Windows e as funcionalidades precisam ser adquiradas. Excel, PowerPoint, Access e outros produtos Microsoft. Adquiridas diretamente pelo usuário. Um segmento personalizável que também se beneficiou muito com o cloud.

Raikes explica também como a Microsoft media o próprio sucesso. Número de PCs e o $ por PC, coisas que Ballmer e Gates tinham na ponta da lingua. Pequenas empresas atingem o sucesso e se tornam megacorporações se orientando com foco em métricas simples. Simples como essas.

Pessoalmente gosto de avaliar as empresas a partir do economics unitário. Observar o economics de uma unidade e avaliar a capacidade de escala da empresa. Pelo visto também faziam assim na Microsoft.

Outra coisa que gosto é quando a empresa é clara e transparente sobre como ela mede e acompanha sua evolução. Se uma empresa varia as métricas que disponibiliza nos releases de acordo com os resultados que teve no período, eu prefiro ficar de fora.

 



 

Raikes fala abertamente sobre a maior das suas preocupações: a frequencia de mudanças de paradigmas em empresas de tecnologia e o impacto disso na vantagem competitiva de uma empresa de tecnologia. Fala ainda sobre como uma empresa dominante pode ficar cega para essas ameaças. Simplesmente fantástico!

Grandes executivos de tecnologia entendem bem isso. Andy Grove, o lendário executivo da Intel, sempre falou como só os paranóicos sobrevivem. É isso! Toda empresa – e em especial as de tecnologia – devem estar sempre trabalhando para diruptarem (existe essa palavra?) a si mesmas.

Mas outra coisa fantástica nesse comentário de Raikes é como ele fala isso abertamente para Buffett. E ele sabe bem que essa é a principal preocupação de Warren: a força de transições de paradigmas em uma indústria que ele não consegue entender bem. E ainda assim Raikes aborda a questão, como uma preocupação dele mesmo.

Lembra o que disse sobre livre troca de idéias? Sobre diálogos não serem uma mera questão de impor sua visão sobre o outro? Nada de jogar a sujeira para debaixo do tapete aqui.

 

TRECHOS DA RESPOSTA DE BUFFETT PARA RAIKES:

  


Parece uma boba introdução de e-mail mas aqui faço algumas notas mentais. Como a importância que Buffett dá a eficiência em detrimento da perfeição. E de certa forma a idéia de que ele está sempre escrevendo para pessoas interessantes. Deixe os idiotas de lado!


 


Apesar de desconfiar do pricing power da Microsoft, Warren mostra que entende bem o modelo de negócios. E pra variar fazendo algumas boas analogias. É interessante porque sempre foi dito que Buffett não entende as empresas de tecnologia. Mas está claro que ele entende com clareza. A quantidade de empresas de tecnologia que cresceram apoiadas nesse simples parágrafo de Buffett é mind-blowing. E ainda assim ele diz que não entende.

Para mim é claro que o que ele não entende, na verdade, é a transição de paradigma e não o modelo em si. Um fato que fica claro na próxima passagem:


Esse parágrafo é um curso por si só. Merece ser lido e relido. Warren deixa claro que sabe que a Microsoft tem um negócio com 'royalties' melhores. Para o investidor comum isso seria suficiente. Compre o melhor 'royalty', ponto final. Preto no branco. Warren não pensa assim, como não pensa nenhum grande investidor. Apesar do royalty melhor, Buffett explica sua dificuldade em atribuir uma probabilidade para o sucesso do negócio. Esse é o determinante. 

O crítico pode olhar pra trás e dizer que Buffett errou, que a Microsoft acabou sendo um melhor investimento do que a Coca Cola. Essa é uma forma pobre de avaliar porque toda a questão vai além de Microsoft/Coca-Cola. O que está em evidencia aqui é o processo. E não tivesse Buffett seguido essa coerência em seu processo, hoje você certamente não saberia quem é Warren Buffett.

Essa diferença entre ver investimentos como preto e branco e ver investimentos como atribuições de probabilidades separa amadores de profissionais. Amador aqui não é o PF e profissional aqui não é o que trabalha com investimentos. Não. Profissional é o que ganha consistentemente do mercado e amador é o resto. Sobram PF profissionais e gestores amadores nessa indústria. Se você é capaz de entender um modelo de negócios e pensar probabilisticamente sobre seu futuro de uma forma desapaixonada, você está no caminho de ser um profissional.

A última grande lição está na última frase de Buffett. I just wait for the fat one”. Baseball não é popular no Brasil então basta saber que Buffett está dizendo que não é preciso ter FOMO ou se afobar. As oportunidades vão sempre aparecer e quando uma estiver no seu entendimento, você aproveita. Um pensamento que dificilmente você vai conseguir colocar em prática se não tiver independência intelectual.



Buffett encerra a discussão sobre negócios mostrando que a avaliação em última análise depende do conhecimento e experiência de cada um. E que especialistas podem navegar melhor por áreas menos específicas do que generalistas por áreas específicas. Uma disfarçada menção sobre o conceito de círculo de competência.

O mais interessante de tudo nessa troca de mensagens entre Raikes e Buffett é que nunca se falou de preço. Ninguém falou em múltiplos, em taxas de desconto, em valuation. O que está acima de tudo é o entendimento do negócio.

Muita gente me pergunta sobre valuation. Ninguém assume, mas o que todo mundo quer é um passo a passo para saber se a empresa é cara ou barata. Colocar número nesse passo a passo é reconfortante. O valuation dá isso. Uma sensação de certeza. Mas não é assim que funciona e sequer é assim que um modelo de valuation deve ser usado. Valuation é importante mas não é o mais importante.

O valuation que eu faço – e que não é o valuation teórico de cursinhos e salas de aula – está no fim da fila. Se eu tiver que fazer valuation antes de tudo, meu tempo vai para o ralo. Para mim, 90% dos negócios podem ser descartados sem precisar começar a fazer contas.

O mais importante é pensar e entender o negócio. Sempre.

Nada substitui o pensamento.

 

Stay cool,
Don Black