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Tuesday, August 11, 2020

Um e-mail para Warren Buffett. E uma resposta do Oráculo de Omaha.

"'- O meu conceito de boa companhia, sr. Elliot, é estar acompanhada por pessoas inteligentes e bem-informadas, que saibam conversar; é isso que chamo de boa companhia.'

'Você está enganada,' disse ele gentilmente, 'isso não é boa companhia, isso é o melhor.'", Jane Austen, Persuasão

Eu, como qualquer outro amante de negócios, acompanho os grandes investidores. Leio biografias, entrevistas e nos últimos anos tenho ouvido também podcasts. Faço isso também com executivos que eu admiro. Se o Bill Gates der uma nova entrevista é certo que eu vou ler. Talvez vocês já tenham notado.

Mas o que eu realmente queria não está disponível. Eu queria ler as trocas de mensagens e participar das conversas particulares que essas pessoas trocam entre elas. Quem não ia querer sentar em uma mesa de bridge com Gates e Buffett e jogar conversa fora sobre negócios, tecnologia, aquecimento global, coronavírus e o que mais for?

Eu tive a felicidade de criar laços com algumas dessas pessoas interessantes que atraem muito público quando falam. Não com Gates e Buffett, infelizmente. E a questão é que quando elas conversam livremente entre si, elas estão em seu estado mais cru de troca de idéias. Não existe a posição de autoridade de ser um convidado de um programa de TV. Não existe a responsabilidade de saber que será lido por uma multidão.

Não é que elas mintam diante do público. Nada disso. Mas o massificado não é profundo. Qual você acha que é a melhor forma de entender o pensamento de Munger e Buffett? Uma semana ouvindo suas entrevistas na CNBC ou uma semana ouvindo os dois ponderando sobre um potencial negócio?

A única forma de você se beneficiar dessa troca entre pessoas interessantes é você fazer parte do circulo das pessoas que você considera interessantes. Uma coisa improvável de conseguir se você for um idiota ou se você gastar todo seu tempo com pessoas idiotas. Então seja consciencioso sobre onde  e com quem você gasta seu tempo. Contribua com bons conteúdos, cerque-se de pessoas que você admira e deixe os idiotas de lado.

A menos que você ache interessante ser idiota, claro.

 ***

Para nossa felicidade uma troca de e-mail de Buffett veio a público. É inusitado porque segundo consta ele não é muito de e-mail o que, de acordo com essa troca, parece ser verdade.

Em 1997 um executivo da Microsoft chamado Jeff Raikes mandou um e-mail para Buffett. Amenidades a parte, Raikes explicou o modelo de negócios da Microsofit para Buffett, falou sobre expectativas futuras e recebeu um reply do velho Warren.

Os dois e-mails juntos são uma aula. Vou deixar aqui a íntegra das mensagens. Agradeço se alguém puder traduzir. Vou também passando abaixo sobre alguns trechos interessantes enquanto faço minhas próprias observações:


TRECHOS DO E-MAIL DE RAIKES PARA BUFFETT:



Raikes fala sobre a troca de mensagens como “uma discussão divertida ou um exercício intelectual”. É exatamente isso! Uma troca de idéia entre um executivo de uma das maiores empresas do mundo e o maior investidor da história. Raikes sabe a posição de Buffett sobre a Microsoft. É claro que mudar a cabeça de Buffett sobre o assunto seria bem vinda mas Raikes sabe que nem todo diálogo precisa ser um exercício de convencimento ou imposição de uma visão sobre a outra. Uma troca é o que é, uma troca. Quando os envolvidos são pessoas interessantes e de alto nível, se torna um “exercício intelectual”. É um ganha-ganha porque as duas partes saem com aprendizados. As duas partes se divertem. Ainda que em última instância ninguém mude de opinião.

Construa um círculo onde você e seus colegas tenham o ambiente para se exercitar intelectualmente. Sem autoridades, sem um buscar vantagem sobre o outro, sem obtusos, arrogantes e donos da verdade. Um ambiente saudável.

 

 

Aqui Raikes explica a linha de receitas OEM, os fabricantes de equipamento. Quase todos os PCs do mundo eram vendidos com Windows. Essa maneira de comoditizar o complemento é muito útil nos negócios. Muitos fabricantes de PCs e no entanto o sistema de todos deveria ser Windows. Enquanto os fabricantes tinham os gastos de fabricação, marketing e vendas, o Windows pegava carona.

O sucesso dos PCs, fosse a fabricante que fosse, se traduziria em sucesso para o Windows. Com a beleza de que os grandes custos estão nos ombros do complemento. No caso, os fabricantes. Não é a toa que, como Raikes fala mais a frente, é um negócio com 90% de margens.

Outras considerações bacanas de Raikes – que não vou colar aqui – são sobre a necessidade de combater a pirataria, o pricing power, switching cost e potencial do mercado internacional. Ele estava certo sobre todas elas.

Avançando bastante pro futuro, é interessante ver o impacto que o cloud teve sobre os resultados da Microsoft. Deixando o Azure de lado, a pirataria foi um problema bem resolvido a medida que a Microsoft migrou para SaaS. A mesma coisa que vimos em outras indústrias, como a da música. A tecnologia é rápida em fazer transições de paradigmas.

 

 

Agora Raikes fala sobre o segundo segmento, o de “finished goods”. É uma variação do conceito do barbeador e da lâmina de barbear. O PC vai com o Windows e as funcionalidades precisam ser adquiradas. Excel, PowerPoint, Access e outros produtos Microsoft. Adquiridas diretamente pelo usuário. Um segmento personalizável que também se beneficiou muito com o cloud.

Raikes explica também como a Microsoft media o próprio sucesso. Número de PCs e o $ por PC, coisas que Ballmer e Gates tinham na ponta da lingua. Pequenas empresas atingem o sucesso e se tornam megacorporações se orientando com foco em métricas simples. Simples como essas.

Pessoalmente gosto de avaliar as empresas a partir do economics unitário. Observar o economics de uma unidade e avaliar a capacidade de escala da empresa. Pelo visto também faziam assim na Microsoft.

Outra coisa que gosto é quando a empresa é clara e transparente sobre como ela mede e acompanha sua evolução. Se uma empresa varia as métricas que disponibiliza nos releases de acordo com os resultados que teve no período, eu prefiro ficar de fora.

 



 

Raikes fala abertamente sobre a maior das suas preocupações: a frequencia de mudanças de paradigmas em empresas de tecnologia e o impacto disso na vantagem competitiva de uma empresa de tecnologia. Fala ainda sobre como uma empresa dominante pode ficar cega para essas ameaças. Simplesmente fantástico!

Grandes executivos de tecnologia entendem bem isso. Andy Grove, o lendário executivo da Intel, sempre falou como só os paranóicos sobrevivem. É isso! Toda empresa – e em especial as de tecnologia – devem estar sempre trabalhando para diruptarem (existe essa palavra?) a si mesmas.

Mas outra coisa fantástica nesse comentário de Raikes é como ele fala isso abertamente para Buffett. E ele sabe bem que essa é a principal preocupação de Warren: a força de transições de paradigmas em uma indústria que ele não consegue entender bem. E ainda assim Raikes aborda a questão, como uma preocupação dele mesmo.

Lembra o que disse sobre livre troca de idéias? Sobre diálogos não serem uma mera questão de impor sua visão sobre o outro? Nada de jogar a sujeira para debaixo do tapete aqui.

 

TRECHOS DA RESPOSTA DE BUFFETT PARA RAIKES:

  


Parece uma boba introdução de e-mail mas aqui faço algumas notas mentais. Como a importância que Buffett dá a eficiência em detrimento da perfeição. E de certa forma a idéia de que ele está sempre escrevendo para pessoas interessantes. Deixe os idiotas de lado!


 


Apesar de desconfiar do pricing power da Microsoft, Warren mostra que entende bem o modelo de negócios. E pra variar fazendo algumas boas analogias. É interessante porque sempre foi dito que Buffett não entende as empresas de tecnologia. Mas está claro que ele entende com clareza. A quantidade de empresas de tecnologia que cresceram apoiadas nesse simples parágrafo de Buffett é mind-blowing. E ainda assim ele diz que não entende.

Para mim é claro que o que ele não entende, na verdade, é a transição de paradigma e não o modelo em si. Um fato que fica claro na próxima passagem:


Esse parágrafo é um curso por si só. Merece ser lido e relido. Warren deixa claro que sabe que a Microsoft tem um negócio com 'royalties' melhores. Para o investidor comum isso seria suficiente. Compre o melhor 'royalty', ponto final. Preto no branco. Warren não pensa assim, como não pensa nenhum grande investidor. Apesar do royalty melhor, Buffett explica sua dificuldade em atribuir uma probabilidade para o sucesso do negócio. Esse é o determinante. 

O crítico pode olhar pra trás e dizer que Buffett errou, que a Microsoft acabou sendo um melhor investimento do que a Coca Cola. Essa é uma forma pobre de avaliar porque toda a questão vai além de Microsoft/Coca-Cola. O que está em evidencia aqui é o processo. E não tivesse Buffett seguido essa coerência em seu processo, hoje você certamente não saberia quem é Warren Buffett.

Essa diferença entre ver investimentos como preto e branco e ver investimentos como atribuições de probabilidades separa amadores de profissionais. Amador aqui não é o PF e profissional aqui não é o que trabalha com investimentos. Não. Profissional é o que ganha consistentemente do mercado e amador é o resto. Sobram PF profissionais e gestores amadores nessa indústria. Se você é capaz de entender um modelo de negócios e pensar probabilisticamente sobre seu futuro de uma forma desapaixonada, você está no caminho de ser um profissional.

A última grande lição está na última frase de Buffett. I just wait for the fat one”. Baseball não é popular no Brasil então basta saber que Buffett está dizendo que não é preciso ter FOMO ou se afobar. As oportunidades vão sempre aparecer e quando uma estiver no seu entendimento, você aproveita. Um pensamento que dificilmente você vai conseguir colocar em prática se não tiver independência intelectual.



Buffett encerra a discussão sobre negócios mostrando que a avaliação em última análise depende do conhecimento e experiência de cada um. E que especialistas podem navegar melhor por áreas menos específicas do que generalistas por áreas específicas. Uma disfarçada menção sobre o conceito de círculo de competência.

O mais interessante de tudo nessa troca de mensagens entre Raikes e Buffett é que nunca se falou de preço. Ninguém falou em múltiplos, em taxas de desconto, em valuation. O que está acima de tudo é o entendimento do negócio.

Muita gente me pergunta sobre valuation. Ninguém assume, mas o que todo mundo quer é um passo a passo para saber se a empresa é cara ou barata. Colocar número nesse passo a passo é reconfortante. O valuation dá isso. Uma sensação de certeza. Mas não é assim que funciona e sequer é assim que um modelo de valuation deve ser usado. Valuation é importante mas não é o mais importante.

O valuation que eu faço – e que não é o valuation teórico de cursinhos e salas de aula – está no fim da fila. Se eu tiver que fazer valuation antes de tudo, meu tempo vai para o ralo. Para mim, 90% dos negócios podem ser descartados sem precisar começar a fazer contas.

O mais importante é pensar e entender o negócio. Sempre.

Nada substitui o pensamento.

 

Stay cool,
Don Black 

Monday, April 27, 2020

O Value Investing


 “Todo investimento inteligente é value investing; então adquira mais do que você está pagando. Investir é onde você encontra algumas grandes empresas e depois fica com a bunda sentada.”, Charlie Munger

Value Investing é um velho incompreendido. Não sei bem a razão de tanta incompreensão. Sendo justo, value investing é o conceito mais trivial que existe. Ou talvez seja essa a razão. Value investing é fácil demais para os especialistas de finanças.

A base do value investing é a idéia de que valor e preço são coisas diferentes. Preço é por quanto podemos comprar ou vender um negócio e valor é o quanto o negócio vale. Donde se conclui naturalmente que o objetivo é comprar um negócio por um preço abaixo do seu valor e vende-lo por um preço acima do seu valor. Pronto, isso é value investing!

Dar essa explicação para um leigo é sempre uma experiência de humildade, já que o leigo sempre joga na sua cara a obviedade da idéia de “comprar barato e vender caro”. E ele tem razão, é realmente óbvio. Tão óbvio que me faz pensar que o primeiro sujeito a abraçar o value investing deve datar do início das trocas comerciais entre os seres humanos. Mas ainda assim o sujeito que leva a fama como pai do value investing atende pelo nome de Benjamin Graham e nasceu na Londres de 1984.



Não é um reconhecimento injusto. Graham, em parceria com David Dodd, foi quem formalizou e difundiu o conceito do value investing (muito embora eles não tenham sido os responsáveis por cunhar esse termo). Graham lecionou na Columbia Business School por trinta anos e muito da sua filosofia foi forjado no crash de 1929, onde Graham sofreu grandes perdas. O que aprendeu nesse período virou livro, primeiro com Security Analysis em 1934 e depois com The Intelligent Investor em 1949.

“Uma operação de investimento é uma onde, após ampla análise, promete segurança de capital e um retorno adequado. Operações que não satisfazem esse critério são especulativas.”, Ben Graham

Desde o início de Graham muitos foram os value investors de sucesso. Gente como Walter Schloss, Joel Greenblatt, Seth Klarman, Tom Gayner, Shelby Davis pai e, claro, Warren Buffett. Cada um com sua maneira de derivar o valor intrínseco, mas todos adeptos do value investing.

Value investing depende só de duas coisas: preço e valor. Preço é fato. Valor não é. Valor é uma noção subjetiva. Se vários value investors forem atribuir valor a uma mesma empresa, as chances são de que os valores vão variar. E dessa subjetividade nasce muita incompreensão.

Quem disse que value investing é comprar apenas empresas com desconto para o book value tangível ou com baixo price to earning e price to book? Uma empresa em deterioração encontra pouco conforto em um book value tangível. Não acredita em mim? Pergunte à Macys então. Se o ferramental é pobre em descrever o valor de uma empresa, seu uso não faz parte de uma estratégia value investing.

Repare nos nomes dos investidores que eu citei ali em cima. Observe suas estratégias.  Schloss é da velha guarda de Graham e buscava descontos para book value com ampla diversificação. Davis buscava empresas com potencial de crescimento de lucros. Greenblatt se dedica a procurar vantagens competitivas (e inclusive escreveu um belo livro sobre o assunto). E Buffett? Buffett é um camaleão, tendo adaptado muito sua estratégia ao longo das décadas. E no entanto, todos value investors.


***

Vamos ler de novo esse negócio colocando de um jeito que me faça sentir bem importante, o self-quoting:

“Se o ferramental é pobre em descrever o valor de uma empresa, seu uso não faz parte de uma estratégia value investing.”, Don Black

Eu sei que é uma lógica decepcionante essa. Seria muito mais fácil aplicar um múltiplo price to book em todas as empresas do mundo como se não houvessem maiores considerações a fazer. Mas não é assim que funciona. E não é isso que o value investing defende.

Não obstante muitos acreditam que as velhas métricas de valor estão eternizadas em alguma pedra sagrada e são, portanto, o que define o value investing. É dai que começa a discussão entre value x growth por exemplo. Besteira, tudo besteira.

O valor de uma empresa depende do valor presente do seu fluxo de caixa, seja ela uma barraca de mariola ou o Google. Entender esse valor – seja para a barraca de mariola ou para o Google – é o exercício do value investing. Na reunião da Berkshire de 2000 Buffett foi especificamente perguntado sobre value e growth, no que respondeu:

“Não são duas categorias diferentes de negócios. O valor presente do caixa que uma empresa gera é quanto vale o negócio. Não existe diferença nas nossas cabeças sobre value e growth. Em toda decisão você tem que definir o quanto de valor você vai receber.”, Warren Buffett

Mas o value investor é um animal conservador. É investimento quando “após ampla análise, promete segurança de capital e um retorno adequado”, lembram? Daí derivam os importantes conceitos de margem de segurança e círculo de competência, nascidos dentro do value investing.

Acontece que não é sempre que o valor de uma empresa já está bem refletido na sua condição presente. Muitas vezes boa parte do valor está no seu crescimento futuro. E o que o value investor faz é reduzir seu risco se distanciando de empresas onde boa parte do valor é derivado de muita incerteza. É por isso, e somente por isso, que muitos value investors viram as costas para empresas conhecidas como growth companies, e não porque growth seja diferente de value. Entenderam? É disso que se trata quando Munger e Buffett lamentam o terrível erro de não terem investido no Google há anos atrás.

"Podiamos ver nas nossas operações como a publicidade no Google estava funcionando bem. E no entanto ficamos parados lá chupando os dedos. Eu me sinto um idiota por não ter identificado o Google. E acho que Warren se sente igual. Nós fizemos merda.", Charlie Munger


*** 

Se o value investor é conservador e se boa parte do valor de uma growth company vem do seu crescimento futuro, então não é o mesmo que dizer que value e growth são diferentes em termos práticos?

Eu acho que não. Acredito que é o caso para os value investors mais velhos porque é como o círculo de competência deles se estabilizou. É um círculo de competência onde empresas de tecnologia não tiveram vez e onde os retornos vinham dos ativos físicos.

Eu vivi essa geração até certo ponto mas sempre acreditei que o círculo de competência de um investidor não pode ignorar tendências seculares. Por isso me esforcei para entender as empresas da era da internet (e só Deus sabe o quanto penei!). A internet foi e ainda é uma tendência secular. Assim como foi a manufatura em determinado ponto da História.

Me lembro até hoje de uma pergunta que fizeram para Buffett sobre o que ele começaria aprendendo se ele estivesse começando hoje. A resposta? Tecnologia. E eu acho que é isso que acontece com os novos - e bons, claro! - value investors. Eles são versados no assunto, sabem aproximar o valor desse tipo de empresa. Tecnologia faz parte do círculo de competência deles e é um tema onde eles podem investir aplicando a margem de segurança. Eu vi isso acontecer com grandes value investors de gerações mais recentes em investimentos como Netflix por exemplo.

Então o que eu vejo é o value investing seguindo seu curso ao longo do tempo. Estratégias vão sendo adaptadas para que o investidor tenha o ferramental certo para estimar o valor das empresas do seu tempo. Mas sempre com a noção de que preço e valor são diferentes. Sempre com o objetivo de pagar abaixo do valor e vender acima. Sempre assessorado por margem de segurança. Coisas simples, que nunca vão agradar uma academia de ciências mas que são amigas da conta bancária.

Stay cool,
Don Black

Monday, May 20, 2019

Margem de Segurança





Depois de um ano e meio de obras e 45 milhões de reais gastos, a ciclovia da Niemeyer foi inaugurada no Rio com algum alarde. A inauguração foi em janeiro de 2016 e as autoridades aproveitavam os holofotes. Afinal, eles estavam presenteando cariocas e turistas com a possibilidade de pedalar ou caminhar do Leblon até São Conrado apreciando a paradisíaca paisagem da nova ciclovia. Três meses depois, um trecho de 20 metros da ciclovia caiu após ser atingido por uma forte onda, deixando mortos e feridos. Que uma onda pudesse atingir o local com tamanha força foi um fato ignorado no projeto. Um erro que custou caro. É para evitar situações como essa que existe o conceito de “Margem de Segurança”, uma margem dada para absorver os efeitos dos erros de cálculo, má sorte e eventos extremos.

Tão comum na engenharia (não na do Rio de Janeiro, infelizmente), o princípio da margem de segurança viaja bem para o mundo dos investimentos e foi popularizado por Ben Graham, mentor de Buffett, há quase 100 anos. Basicamente, a margem de segurança em investimentos é dada pela distância entre preço e valor. Quanto maior essa distância, maior a margem de segurança. E para nos auxiliar na diferença entre preço e valor, vou recorrer a uma frase de Buffett que é brilhante em sua simplicidade:

“Preço é o que você paga, valor é o que você recebe”

Mas enquanto o preço é um dado concreto que pode ser visto em qualquer painel de cotações, o valor vai exigir um pouco mais do investidor.

Cada investidor tem a sua abordagem na hora de encontrar o valor de uma ação para, então, aplicar a margem de segurança. Ben Graham, por exemplo, se apoiava nos valores contábeis das demonstrações financeiras. Se uma empresa fosse negociada pela metade do seu capital circulante, Graham se interessava. Pouco importava se a empresa tinha bons números operacionais ou não. No limite, a empresa valeria mais morta do que viva e portanto bastaria liquida-la e embolsar o lucro. Esse é um tipo de oportunidade que foi desaparecendo com o tempo mas, ainda hoje, alguns investidores buscam determinar o valor de uma empresa pelo que ela carrega em seu balanço. Outras pessoas buscam estimar o valor presente do fluxo de caixa futuro da empresa, em um processo que pretendo ensinar futuramente aqui no blog.

A dificuldade em se estimar o valor de uma empresa vai se refletir na margem de segurança que o investidor vai exigir. Startups, por exemplo, demandam uma margem de segurança maior do que empresas consolidadas porque carregam mais incertezas nas estimativas de fluxo de caixa, crescimento e margens. Alguns investidores vão além e tentam compensar todo tipo de incerteza na margem de segurança. Essa é uma violação básica do Círculo de Competência, discutido em post anterior. A margem de segurança não existe para viabilizar investimentos fora do círculo de competência. Muito pelo contrário, círculo de competência e margem de segurança são conceitos que devem ser aplicados juntos para a obtenção de retornos com preservação do principal.

O perigo em se ignorar o círculo de competência é que mesmo uma grande margem de segurança pode ser insuficiente quando temos uma estimativa completamente errada acerca do valor do negócio. E a forma mais fácil de chegar em uma estimativa completamente errada acerca do valor de um negócio é estimando um negócio fora do círculo de competência. Para colocar em perspectiva, uma boa margem de segurança de 40% não vai servir pra nada se sua estimativa for muito otimista.

Para finalizar, quero chamar atenção para o custo de se usar uma margem de segurança exagerada.  Se por um lado ela vai evitar que o investidor compre ações que estão caras, por outro ela também vai evitar que o investidor compre ações que estão baratas. Aprenda a calibrar sua margem de segurança! Por mais importante que seja não tomar gol, ninguém entra em campo com dez zagueiros.

Stay cool,
Don Black


Sunday, April 28, 2019

O conceito do Círculo de Competência





“Eu não sou um gênio. Em sou esperto em algumas áreas—e eu me mantenho nessas áreas.” — Tom Watson Sr., Fundador da IBM

No início dos anos 90 um sujeito chamado Paulo Roberto de Andrade achou que seria uma boa idéia transformar o processo de engorda de bois em um produto financeiro. A promessa era de rentabilidades acima de 40% em 18 meses e portanto não faltou gente vendendo o produto no mercado. A propaganda era boa! Quando o Antonio Fagundes não estava fazendo o Bruno Mezenga na novela, ele estava recomendando o investimento nos comerciais. Que a novela se chamasse Rei do Gado tornava tudo ainda mais mágico. E que o processo normal de engorda de bois rendesse, historicamente, algo como 10% em 18 meses era um detalhe de pouca significância. Afinal, todo mundo conhecia alguém ficando rico com o esquema das Fazendas Reunidas Boi Gordo. Advogados, médicos, engenheiros e todo o tipo de gente que nunca viu um boi na vida, correram para investir e ver suas economias de vida se multiplicando. No final, 30 mil investidores perderam quase 4 bilhões de reais naquela que é uma das maiores pirâmides financeiras da história do país.

Existem algumas razões pelas quais uma pessoa cai nesse tipo de armadilha e uma delas é o tema desse post: ignorar seu círculo de competência! Círculo de competência é a área que corresponde aos seus conhecimentos, habilidades e expertise. Em outras palavras, círculo de competência é aquilo que você sabe! Enquanto os números fantasiosos das Fazendas Reunidas Boi Gordo saltariam a vista de um pecuarista, eles não seriam tão óbvios para um dentista.  No entanto, o dentista teria grande vantagem ao avaliar uma empresa como a Odontoprev.

Toda vez que o investidor se aventura no desconhecido, ele está saindo do seu círculo de competência. Pode ser ótimo em caráter exploratório mas é potencialmente devastador para o investidor. Em sua carta de 1996, Warren Buffett escreveu o seguinte:

“O que o investidor precisa é da habilidade de avaliar corretamente determinados negócios. Atenção na palavra “determinados”: Você não precisa ser um especialista em todas as empresas, nem mesmo em muitas. Você só precisa ser capaz de avaliar as empresas no seu círculo de competência. O tamanho desse círculo não é muito importante; conhecer o seu limite, no entanto, é vital”

Buffett se manteve fiel ao seu príncipio mesmo diante das pesadas críticas sofridas no fim da década de 90. Alegando não entender de empresas de tecnologia, Buffett se recusou a participar do boom das empresas de internet. A medida que os preços das empresas de tecnologia iam subindo em disparada, os resultados de inúmeros gestores também iam subindo e, consequentemente, a performance de Buffett ia ficando pra trás. Dizer que Buffett estava obsoleto e acabado tinha virado tema comum. Até que explodiu a bolha do Dotcom e Buffett renasceu das cinzas.

O fato é que Buffett nunca disse que as empresas de tecnologia eram ruins. Ele apenas soube reconhecer sua limitação em avalia-las, o que é bem diferente. E entender as próprias limitações é uma qualidade importante na vida do investidor. Alguém poderia dizer que por se manter em seu círculo de competência Buffett também deixou de ganhar muito dinheiro. Como, por exemplo, ao se recusar a investir na Microsoft apesar de ser amigo pessoal de Bill Gates há decadas. Sobre isso, Buffett é bem claro:

Os erros são cometidos quando existem negócios que você entende e que são atraentes e você não faz nada em relação a isso. Eu não dou a mínima para situações que aparecem como quando eu conheci Bill Gates e não comprei Microsoft.”

A mensagem de Buffett é direta: em seu processo de investimento não cabem negócios que ele não entende. Não importa se o negócio é indicado pelo dono, se é promovido por publicitários, se é a última moda ou se muita gente está ganhando dinheiro com ele: sem um entendimento não há investimento. Por que ele faz isso? Porque as chances de se cometer um erro são maiores quando se sai do seu círculo de competência.

Qualquer pessoa de bom senso há de concordar que é mais fácil perder dinheiro em um negócio que se conhece pouco do que em um negócio que se conhece muito. Então por que alguém iria se expor a investir fora do seu círculo de competência? Basicamente por modelos mentais disfuncionais. Alguns dos mais comuns são:

  1. Tendência de superestimar as próprias habilidades. Acontece quando o investidor acredita que seu círculo de competência é maior do que realmente é, fato muito corriqueiro entre pessoas extremamente inteligentes. Essa é a razão pela qual Buffett mencionou que conhecer os limites do seu círculo de competência é vital.
  2. Inveja ou, em outras palavras, não querer ficar pra trás do vizinho. O investidor deveria ocupar seu tempo em desenvolver seu processo e ir dormir cada dia um pouco melhor do que quando acordou. A corrida que o investidor deve travar é sempre contra ele mesmo. Na prática, contudo, não é assim que acontece. Investidores costumam ter natureza competitiva e por isso nutrem obsessão pelo desempenho dos seus pares. E quando todos os seus pares estão ganhando dinheiro com o desconhecido, a tentação é grande de segui-los.
  3. Tendência a hiperatividade. Incapazes de encontrar oportunidades dentro do círculo de competência, investidores se vêem na necessidade de navegar em mares desconhecidos. A melhor solução nesses casos é simplesmente não fazer nada. Como disse Pascal, “a maior parte dos problemas do homem decorre da sua incapacidade de ficar sozinho e quieto em um quarto.”

A boa notícia é que é possível expandir seu círculo de competência. Como todo processo que é bem feito, exige dedicação, tempo e paciência. Ninguém vira especialista em uma nova indústria do dia pra noite. Mas aos poucos é possível construir uma nova base de conhecimento. Por isso a vida do investidor deve ser o de constante aprendizado. E é por isso que o investidor que vive uma vida de estudos amplia cada vez mais a sua vantagem com o passar dos anos. Essa é a verdadeira vantagem da experiência. A experiência que vem da velhice, sem um refinamento do processo de investimento, não significa nada. Não importa o quão bem sucedido você já é, sempre existe alguma coisa pra aprender. As vezes é um ativo, uma indústria, um tipo de gestor ou um novo país.

Resumindo, o que fica desse post é o seguinte:

  1. Seja honesto consigo mesmo e defina o seu círculo de competência
  2. Opere apenas dentro dos limites do seu círculo de competência
  3. Trabalhe para ampliar o seu círculo de competência ao longo do tempo


Esse blog, assim como meu novo twitter, é pra mim uma oportunidade de expandir meu círculo de competência. Com eles eu sigo aprendendo com grandes pessoas um pouco mais sobre as indústrias e empresas brasileiras. Espero que também possa ajudá-lo(a).

Stay cool,
Don Black