UM CHAMADO DA EMPATIA
"Can I see another’s woe,
And not be in sorrow too?
Can I see another’s grief,
And not seek for kind relief?
...
No, no! never can it be!
Never, never can it be!", William Blake
Muitos desmerecem o peso da sorte. Fazem assim por achar que estão
diminuindo seus méritos ao dar à sorte o seu devido valor. São os mesmos que,
em se tratando das falhas, fazem questão de lembrar do azar. É um pensamento
incoerente que afaga o ego.
Eu sempre tentei não ser assim. Tento ver o azar como uma aleatoriedade
da vida e a sorte como uma graça direcionada. É um pensamento incoerente que alimenta
a humildade. Essa sim, uma incoerência bem vinda.
Eu tive sorte em muitos episódios da minha vida. Um dos mais marcantes
foi ter conhecido o sujeito a quem tenho como mentor. Nos conhecemos ainda nos
Estados Unidos em uma relação que começou turbulenta (por minha causa) e que
hoje, décadas depois, é uma relação de pai e filho.
Meu mentor, como vocês podem imaginar, também é investidor. Desde que o
Coronavirus começou, lá em Wuhan, conversamos sobre os potenciais impactos nos
negócios. Discutimos coisas como as cadeias de fornecimento, trabalho remoto e
serviços de entrega. A medida que o impacto foi aumentando e as bolsas
começaram a sofrer, seguimos conversando. Sempre o mesmo tipo de diálogo. Sempre
investimentos. Até ontem.
Meu mentor, além de investidor, tem idade avançada. E desde que o Coronavirus
começou, lá em Wuhan, não falamos nenhuma vez sobre o impacto que isso tem na vida
dele. Tanto ele quanto eu, conhecedores da letalidade do vírus para gente da
faixa etária mais alta, nos mantivemos calados. A medida que o impacto foi
aumentando e o virus chegou na Europa, continuamos calados. Nós estávamos muito
ocupados falando de investimentos e oportunidades. Eu estava muito ocupado pensando
apenas em investimentos e oportunidades. Até ontem.
Ontem meu mentor me ligou. Apenas mais uma conversa sobre o mercado, eu
pensei.
- Don, será que você pode fazer um favor pra mim? Preciso comprar algumas
coisas e o meu funcionário não está aqui.
- Ahn? Tá bom. Você quer que eu te leve lá no Marks and Spencer?
- Não, na verdade eu quero que você vá lá e compre algumas coisas pra mim e traga
aqui em casa, pode ser? Te pago com um uísque.
- Tudo bem, eu acho...
- A Mary (mulher dele) acha que a gente devia evitar algumas coisas. Eu
acho bobagem, mas você sabe como ela é. Diz que o coronavirus gosta de velho
E então eu entendi tudo.
Desde que o Mr. Market entrou em depressão que ando completamente
absorvido pelo mercado. O telefone toca com mais frequencia, as oportunidades
aparecem e precisamos dar uma resposta. Tem seu lado bom. Mas acho que em
algum momento eu me dissociei da vida real, do impacto que isso está tendo para
tanta gente. Gente que eu não conheço e também gente com quem eu me importo muito. Gente
como o meu mentor.
Peguei a lista de compras, fui no Marks and Spencer e depois levei
lá na casa dele. O uísque estava me esperando como prometido. Entre um gole e
outro falamos sobre o coronavírus, sobre envelhecer, sobre a vida e só um
pouquinho de nada sobre negócios. Sai de lá falando que quando ele precisasse
de ajuda era só pedir. Ele agradeceu.
Mas a verdade é que ele é um sujeito de recursos. Ele não precisava que eu
fizesse as compras pra ele. Ele quis que eu fizesse. Talvez por ele, talvez por
mim. Por que eu acho que eu era quem mais precisava de ajuda. Quando você lê
alguém minimizar uma situação onde “só velho morre” e não se choca, você precisa de ajuda. E eu estava assim. Então meu mentor fez o que faz de melhor, me mandando pra casa com mais uma lição na bagagem.
Empatia é importante. E nunca alguém foi pior investidor por ter
empatia. Ainda que tivesse sido, teria valido a pena.
Nunca perca a empatia!
***
O CORONAVIRUS
O coronavirus é uma daquelas situações onde se apenas aqueles que sabem
o que está acontecendo pudessem falar, o mundo estaria mudo.
E apesar de ninguém saber o que vem pela frente, muita gente opina com
muita convicção. E seja lá qual for sua convicção, você encontra argumentos que
se encaixam na sua visão de mundo, no seu medo e na sua psicologia.
Alguém na China falando sobre omissão de dados? Existe!
Alguém na China falando que estão se recuperando? Existe!
Alguém na Itália narrando o caos? Existe!
Algum médico dos Estados Unidos minimizando o contágio? Existe!
As pessoas escolhem o que as agrada nesse self-service de opiniões
"fundamentadas" e saem por aí cheias de certezas em um ambiente onde
a única certeza é a de que não há certezas.
Eu entendo a responsabilidade que alguns ombros carregam. Incertezas em
meio ao perigo podem criar o caos. Autoridades não podem ser dar ao luxo de ter
muitas opiniões vacilantes em frente a um microfone.
Mas enquanto investidor eu sempre me distancio de quem fala com
propriedade sobre coisas que desconhecem. Sim, eu tenho uma opinião sobre o
coronavirus. Claro que tenho. É uma opinião que vai sendo moldada a cada
informação que vou recebendo.
Mas eu sei que é apenas uma opinião, um palpite em
um mar de dúvidas. Nada mais.
***
O MERCADO
“Experience tends to confirm a long-held notion that being prepared, on a few occasions in a lifetime, to act promptly in scale, in doing some simple and logical thing, will often dramatically improve the financial results of that lifetime.", Charlie Munger
O bull market oficialmente acabou. Foi bom enquanto durou. Mas eu sou
velho o suficiente pra saber que é no bear market que se ganha dinheiro, ainda
que a gente não saiba na hora. Então vamos ao que interessa.
Eu vejo hoje muitas oportunidades no mercado. Muitas!
Empresas de balanço forte, baixo endividamento, potencial de crescimento de
longo prazo e geradoras de caixa estão a preços inimagináveis até pouco tempo
atrás. Um caso emblemático pra mim é uma empresa que estou monitorando há dois
anos e só agora, finalmente, pude comprar em um nível que me interessa. Patience
pays.
Desde meados do ano passado que venho construindo minha base de
conhecimento de ações brasileiras. E também no Brasil vejo muitas oportunidades
nesse momento. Mr. Market não fez distinção e espancou muita companhia boa
também. Nessa hora não precisa dar nó em pingo d`água. Você não vai ganhar
ponto por complexidade. Evite as problemáticas, vá em quem é bom e espere.
As regras de antes são as mesmas de agora. Não se alavanque e use apenas
o dinheiro que você não precisa para os próximos anos. Siga isso e a
volatilidade vai jogar no seu time. E confie em mim quando eu digo que a última
coisa que você quer é ela jogando contra você. Ainda mais agora.
Eu não sei se estamos no fundo e não sei quanto tempo vai levar até nos
recuperarmos. Eu não penso nisso, pra ser sincero. Nenhum grande investidor
acorda pensando se é fundo ou não. Para mim, cotação é um fato da vida, fora do meu controle. Eu olho
pra ela e vejo se há alguma coisa pra fazer. Se há eu faço e se não há, não
faço. Simples assim.
Lembre-se que os executivos estão perdidos. Eles não sabem o quanto
serão impactados, guidances serão suspensos e revistos. É normal que aconteça
isso. O que não é normal é que executivos vivam em negação. Evite os iludidos.
Vá nas empresas que você conhece e faça as operações que você conhece
porque nessa época não há normalidade. O mercado fica caótico, plataformas
param de funcionar, grandes players precisam de saída... Faça o feijão com
arroz para não se ver encrencado no imponderável.
Chega um momento em que não há nada pra fazer senão esperar. Você já
comprou o que tinha que comprar e já ajustou seu portfólio como tinha que
ajustar. Quando esse momento chegar pra você, esqueça o mercado e vá viver sua
vida. Porque o mercado deve cair mais uns 30% a partir daí e a melhor forma de
você não se desesperar é você não ver isso acontecer.
O pânico, assim como a euforia, é contagioso. Siga o processo e faça o
que for preciso para afastar o pânico. Saia dos grupos de Whatsapp, saia do
twitter, evite noticiário, evite pensar nos valores que você está perdendo.
Esse é um momento em que o viés da confirmação pode jogar a seu favor. Ouça o Barsi
dizendo que está comprando, o LAPB dizendo que está barato, converse com quem
te dá tranquilidade. Faça o que tiver que ser feito mas não entre em pânico.
Lembra quando você via o gráfico do índice, olhava para 2008 e pensava
que aquilo era uma oportunidade que você queria ter vivido?
Chegou sua hora.
Stay cool,
Don Black
Março foi "sofrível", queria ter lido esse texto naqueles dias. Excelente o texto quando lembro o que estávamos vivendo, mostrando como essas lições aqui expostas são robustas: empatia, se afastar das certezas, apostar nas probabilidades qnd estão ao seu favor e perceber a vida enquanto os dados rolam. Esse ano tb entendi de fato essa sua frase " Eu olho pra ela (cotação) e vejo se há alguma coisa pra fazer. Se há eu faço e se não há, não faço. Simples assim."
ReplyDeleteObrigado por compartilhar suas ideias, muito bons os artigos
Meu amigo, fique tranquilo pois novos "marços" virão ao longo da sua vida. Tenho certeza que você vai estar ainda mais preparado.
DeleteGrande abraço,
DB